quarta-feira, outubro 18, 2006

Sede e procuro a água mais salgada onde
a sede seja maior, eu que acordo tanto
de tanto estar por fora do mar das coisas,
dentro no barco dos olhos que vêem
de longe os corpos tão próximos,
as mãos tão unidas em nós desatados,
que agarram os livros e as costuras dos
livros
para os arderem de novo no fundo da casa.

O fogo
[e a sede que o fogo amamenta
na insónia da água salgada]
torna-se doce quando a chuva cresce
por dentro das casas.
É ver-me ateando a madeira quando faz o teu
frio
e soprar a manhã para dentro do corpo fazendo mais
lume.

Quando a chuva cresce por dentro das casas
a sede, mais sede que vem por arder, é chão,
e os passos caem da boca como se o sal
também crescesse
e o chão também falasse
e nada do que eu digo,
da minha boca como chão,
do sal como sede,
dos passos como casas,
nada onde acorde tanto de estar tão pouco por dentro das coisas,
nada tem tanto o teu frio.

15 comentários:

Anónimo disse...

É lindíssimo o teu poema. Dos que mais gostei até hoje. Chega aqui o frio e essa ideia clara de chuva numa arquitectura interior que reconheço tão tua. Gostei muito mesmo, e os últimos versos perfeitos.Um beijo

Anónimo disse...

Muito bonito. Não consola tratar o sofrimento com as mãos do talento, mas pelo menos gera-se qualquer coisa e essa coisa é o belo.

nuno disse...

marta, é nesse reconhecimento de chuvas que a ideia de frio é recorrente e arquitecta os versos. tão minha ou tão pouco razoavelmente um espaço que se habita, muitas vezes de frente para trás ou como tu tão bem concluíste, do avesso... um beijo grande...

nuno disse...

obrigado, clara, embora do belo haja uma simplicidade de mãos e de talento, que por tantas vezes me foge em emoções confusas...

um beijo

nuno disse...

provavelmente por sermos tantos :)

Anónimo disse...

gostei muito. um beijo.

nuno disse...

e que bom que aqui estejas. estás. e que por dentro das minhas palavras também te encontre à espreita...

um beijo

kelly disse...

fiquei sem fôlego. acho que atingi o desmaio. obrigada!

nuno disse...

obrigado eu por essas palavras que, afinal, estavam cheias de fôlego...

Miss Marble disse...

Nada tem tanto...este texto, se calhar, diz tudo - a síntese que acredito que procures, que procuramos - gostei tanto...um beijo enorme

nuno disse...

se calhar diz muito ou nem tanto. mas sabes que por vezes sinto que o que procuro, na realidade, é apenas uma palavra que possa ser conjugada de forma mais simples...

um beijo grande.

firmina12 disse...

a pedra tem tudo. desde o fogo ao frio

nuno disse...

e é na pedra que a inscrição se perpetua através. ou entre. do fogo e do frio, ou do fica entretanto dentro. pedra. obrigado pela visita, luísa...

Graça disse...

Pode-se dizer muito de qualquer texto. Ou de qualquer pessoa. Ou seja do que for. Ficaremos sempre “por fora do mar das coisas” ou “tão pouco por dentro” dele. Por mais que se tente atear as palavras. Ou os passos. Ou “soprar a manhã para dentro do corpo.” Deve ser esse o mais difícil dos mares, o que nunca se atravessa, só feito “de sal como sede”.

nuno disse...

é por se dizer tantas vezes um texto, ou uma pessoa, ou como dizes Graça, seja o que for [que é só isso aqui], que por fora do mar das coisas apenas nos sobra o corpo a falar do cansaço. ainda assim, do que nunca se atravessa, eu, por mim, talvez ainda continue a soprar a manhã para dentro do corpo...